» Administração contábil
Para ter uma empresa saudável, é preciso conhecer contabilidade
Por: Silvio Crepaldi
A contabilidade é uma atividade fundamental na vida econômica. Mesmo nas economias mais simples, é necessário manter a documentação dos ativos, das dívidas e das negociações com terceiro. O papel da contabilidade se torna ainda mais importante nas complexas economias modernas. Uma vez que os recursos são escassos, temos de escolher entre as melhores alternativas, e para identificá-las são necessárias os dados contábeis.
Em sentido amplo, a contabilidade trata da coleta, apresentação e interpretação dos fatos econômicos, usando o termo “contabilidade administrativa” para descrever essa atividade dentro da organização e “contabilidade financeira” quando a organização presta informações a terceiros.
Costuma-se dizer que a contabilidade é causa e efeito da atividade econômica. Causa porque seu aprimoramento permite informações mais confiáveis que estimulam os agentes econômicos a avançar em suas atividades. Efeito porque o avanço da atividade econômica praticamente obriga o desenvolvimento da pesquisa e da metodologia contábil.
Em 1494, portanto, há mais de 500 anos, época de grande desenvolvimento econômico, um pesquisador italiano, frei Luca Paccioli, emitiu um tratado de escrituração que acabou por instituir mundialmente o método das partidas dobradas - a todo débito deve corresponder um crédito.
Não se tratava de nenhuma novidade nem tampouco de um método que revolucionou a prática mercantil, mas de um axioma, uma verdade em si, já que era utilizado há tempos pelos fenícios, conhecidos comerciantes internacionais, e por outros povos do oriente médio, exímios na utilização dos números e da contabilidade.
Foi do Oriente que veio o gosto pelo requinte das sedas e musselinas, das especiarias e dos tapetes, que terminaram por fazer de Veneza um porto estratégico e dos venezianos, comerciantes notáveis.
Se hoje apenas num almoço é possível desfrutar de uma massa italiana, de um vinho francês e de frutas chilenas como sobremesa, na Idade Média, a dificuldade de transporte impedia a atividade comercial diária e freqüente. Os mercados semanais de trocas agrícolas e as feiras periódicas, uma ou duas por ano, compreendiam toda a atividade mercantil da época e tiveram grande importância, especialmente em função das transações financeiras que ali se iniciaram. Afinal, era bem mais fácil trocar um fardo de lã por dinheiro do que por gaiolas de perdizes.
Carregar moedas no bolso em vez de uma carroça de mercadorias foi um grande incentivo ao comércio, expandiu o mundo dos negócios e lançou embarcações ao mar, em busca de mais mercadorias e melhores preços.
A atividade econômica crescia e se sofisticava. A contabilidade também, principalmente pelos ingleses que, com grandes investimentos em outros países, se dedicaram de maneira extraordinária à pesquisa e ao aperfeiçoamento da prática contábil.
Por necessidade, as empresas brasileiras tornaram-se especialistas em procedimentos que refletissem o efeito da inflação nas informações contábeis. Não foi fácil. Especialmente com o volume de transformações por que passou o mundo nas duas últimas décadas. Era preciso registrar na contabilidade das empresas o impacto conjuntural, a parte que cabia à inflação e extrair de tudo informações capazes de nutrir a tomada de decisões.
Sistematicamente, nas relações comerciais ou, informalmente, na vida diária, os princípios contábeis estão presentes. Eles descrevem e quantificam a dualidade de características dessas operações. Se entregarmos alguma riqueza a alguém numa relação de troca, certamente receberemos uma outra riqueza. Se extrairmos um minério do subsolo, teremos uma riqueza acima do solo, mas, em contrapartida, o subsolo deixou naquele momento de contar com ela.
Como se vê, débitos e créditos são mais freqüentes do que se imagina, embora a contabilidade seja vista com certo descaso pelos que a enxergam apenas de forma pragmática e imposta. É bem verdade que o que se desconhece parece chato e desnecessário. É, entretanto, impossível administrar eficientemente uma empresa sem mergulhar na contabilidade e extrair dela informações suficientes para conhecer profundamente seu funcionamento. O passo seguinte é descobrir as múltiplas possibilidades de utilização desses dados.
Muitos governos seriam bem mais prósperos se administrassem suas contas como quem administra um orçamento doméstico: gasta-se o que se tem, investe-se o que está disponível e poupa-se o que resta. Melhor faziam os habitantes das cavernas: cada nó de fibra vegetal, cada marca na parede correspondiam a um pagamento ou ao que se esperava receber em troca. Se as operações hoje em dia não são tão simples, as máquinas estão aí para facilitar o processo. Mesmo assim, nada muda o que foi dito há 500 anos: a cada débito corresponde um crédito.
* Silvio Crepaldi é meste em Administração e coordenador dos cursos de Administração e Ciências Contábeis das Faculdades Integradas de Patrocínio (FIP).
Envie para um amigo
Imprimir